Desvendando o grau da placenta

Categorias: Dúvidas, Gestantes
Data: 13/01/2020   1084 Views  

Em 1979 um médico chamado Peter A.T. Grannum publicou o artigo The ultrasonic changes in the maturing placenta and their relation to fetal pulmonic maturity. Neste artigo propôs  uma maneira de classificar o aspecto ultrassonográfico da placenta. Durante a gestação a placenta tem aspecto ultrassonográfico homogêneo. Ou seja, a imagem produzida pela placenta tem aproximadamente o mesmo tom de cinza em toda a sua extensão.

Com o passar do tempo e evolução da gravidez, algumas áreas da placenta recebem uma pequena deposição de sais de cálcio, formando pequenas calcificações. Essas calcificações (dependendo do seu tamanho) podem ser vistas no exame de ultrassom, formando pequenos pontos brancos na placenta. A classificação criada por Grannum foi a seguinte:

  • Grau 0 – placenta homogênea, sem calcificações.
  • Grau I – placenta heterogênea, apresenta pontos brancos (ecogênicos) dispersos pela placenta.
  • Grau II – placenta heterogênea, apresenta agrupamentos de calcificações que formam imagens que parecem uma vírgula
  • Grau III – placenta heterogênea, apresentando calcificações circulares que contornam os cotilédones placentários
Grau da Placenta - Classificação de Grannum

Classificação do Aspecto Ultrassonográfico da Placenta publicado por Peter Grannum

Em uma época aonde o ultrassom estava iniciando e muitas vezes havia dúvida sobre a idade gestacional, o grau da placenta foi utilizado pra tentar “ajudar” a dizer se a gestação era mais precoce ou mais avançada. Atualmente com a difusão do ultrassom temos métodos mais precisos para datar a gestação. Um exame realizado no primeiro trimestre da gravidez tem uma margem de erro muito pequena para datar a gravidez. Dessa forma o grau placentário perdeu progressivamente a sua relevância no sentido de tentar determinar a idade gestacional.

Veja no gráfico abaixo a prevalência de cada grau placentário de acordo com a idade gestacional.

idade gestacional e grau da placenta

Grau placentário de acordo com a idade gestacional. Reproduzido de Petrucha RA, Platt LD. Relationship of placental grade to gestational age. Am J Obstet Gynecol. 1982.

O grau da placenta interfere no parto?

De maneira nenhuma. O grau da placenta não irá fazer com que o parto aconteça mais cedo ou mais tarde. Ocorre que como o grau de maturação placentária avança conforme a idade gestacional aumenta, em idades gestacionais mais avançadas a placenta está geralmente mais amadurecida. Assim, próximo ao parto geralmente temos uma placenta grau II ou III. Entretanto não é necessário que a placenta esteja grau II para fazer o parto. Muitos partos ocorrem mesmo com uma placenta grau 0 ou I.

Então como o médico sabe que dá pra fazer a cesárea?

Caso você opte por uma cesárea eletiva, o seu obstetra irá marcar ela para próximo da 39ª semana. Nesta época temos os melhores desfechos conforme já comprovado em alguns estudos (veja Idade Gestacional da Cesárea Eletiva e Desfecho Perinatal). Se você tem dúvidas de como calcular a idade gestacional você pode usar a nossa calculadora de idade gestacional.

Devo me preocupar com o grau da placenta?

Não, se o feto está com crescimento adequado e o líquido amniótico está normal, não há motivo para se preocupar com o grau da placenta. O aspecto da placenta não interfere na sua função. Podemos ter uma placenta grau III que funciona muito bem e uma placenta grau 0 que não está muito boa.

E o que é a placenta grau 2A e 2B?

Além da classificação de Grannum, existe uma classificação do grau placentário que foi publicada pelo professor Hamilton Júlio, da Universidade Federal do Paraná (Graduaçäo placentária simplificada). A classificação de Hamilton Júlio divide o grau 2 em a e b, dependendo da profundidade atingida pela calcificação. Essa classificação é mais utilizada em Curitiba.

Grau Placentário - Hamilton Júlio

Classificação Placentária Simplificada de Hamilton Júlio.

O grau da placenta pode “diminuir”?

Não é incomum que em um exame a placenta esteja grau II e num exame subsequente ela esteja grau I. Apesar de isso não parecer fazer sentido, a classificação da placenta em graus é uma análise subjetiva e não é mensurável. Ou seja, uma pessoa pode classificar uma placenta como grau II e outra pessoa poderia classificar como grau I. Já tivemos a oportunidade de publicar um artigo sobre esse assunto (Reproducibility of placental maturity grade classification using a dynamic ultrasonography). 

 

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