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Guia Especialista Ultrassom 1.º Trimestre Atualizado 2026

Translucência Nucal:
Guia Completo do Especialista

Este é o guia mais completo sobre translucência nucal da internet. Escrito por um especialista em medicina fetal com pesquisa publicada sobre o tema, reúne tudo o que você precisa saber: o que é, quando fazer, valores normais e o que fazer se estiver aumentada.

10 tópicos Leitura: ~12 min Revisado por especialista 6 referências

1. O que é a Translucência Nucal?

A translucência nucal (TN) é uma pequena coleção de líquido que se acumula entre a pele e o tecido subcutâneo na região da nuca do feto. Ela pode ser visualizada e medida por ultrassonografia no primeiro trimestre da gestação.

No exame de ultrassom, a TN aparece como uma faixa escura (translúcida) entre duas linhas brancas — uma correspondente à pele do feto e outra ao tecido subcutâneo. A espessura desse espaço, medida em milímetros, é o que chamamos de medida da translucência nucal.

Medida da translucência nucal no ultrassom de primeiro trimestre — faixa translúcida na nuca do feto
A translucência nucal é a área translúcida atrás da nuca do feto, visível ao ultrassom.

Todos os fetos possuem essa coleção de líquido na nuca durante o primeiro trimestre. O que diferencia um resultado normal de um resultado alterado é a espessura dessa medida em relação à idade gestacional. Quanto maior a medida, maior o risco de o bebê apresentar alguma alteração cromossômica ou estrutural.

2. Para que Serve o Exame?

O exame de translucência nucal é uma ferramenta de rastreamento — isto é, ele não dá um diagnóstico definitivo, mas identifica os bebês com risco aumentado para determinadas condições. As principais indicações são:

Rastreamento de síndromes cromossômicas

A TN aumentada está associada a um risco elevado de alterações cromossômicas, especialmente:

  • Síndrome de Down (trissomia do cromossomo 21)
  • Síndrome de Edwards (trissomia do cromossomo 18)
  • Síndrome de Patau (trissomia do cromossomo 13)
  • Síndrome de Turner (monossomia do X)
  • Síndrome de Noonan
  • Triploidias e outras aneuploidias

Detecção de anomalias estruturais

Mesmo em fetos com cromossomos normais, a TN aumentada pode indicar a presença de malformações, como:

  • Malformações cardíacas congênitas
  • Hérnia diafragmática congênita
  • Displasias esqueléticas
  • Outras anomalias estruturais

Rastreamento de cardiopatias congênitas

Existe uma forte associação entre a translucência nucal aumentada e as malformações cardíacas. Fetos com TN aumentada e cromossomos normais têm risco significativamente maior de apresentar cardiopatias congênitas, o que torna a ecocardiografia fetal subsequente fundamental.

Pesquisa publicada

O Dr. Rafael Bruns é autor de pesquisa publicada sobre o uso da translucência nucal no rastreamento de cardiopatias congênitas em fetos cromossomicamente normais (Arq. Bras. Cardiol., 2006). Sua tese de mestrado na UNIFESP investigou esse tema em profundidade.

3. Quando Fazer a Translucência Nucal?

A translucência nucal deve ser medida entre 11 e 14 semanas de gestação, mais precisamente quando o feto tem um comprimento cabeça-nádegas (CCN) entre 45 e 84 mm.

11 sem
Feto pequeno
12 sem
Janela válida
12½–13 sem
Ideal
13½ sem
Ainda válido
14 sem
Limite

A detecção de malformações é mais eficaz entre a metade da 12ª e a metade da 13ª semana. Adaptado de Rossi, Obstet Gynecol 2013.

Por que essa janela de tempo?

Antes de 11 semanasO feto é muito pequeno, dificultando a obtenção de uma medida precisa.
Após 14 semanasO líquido tende a ser reabsorvido pelo sistema linfático em desenvolvimento, tornando a medida menos confiável.

Momento ideal

Embora o exame possa ser realizado em qualquer momento dentro da janela de 11 a 14 semanas, a maioria dos especialistas prefere realizá-lo no final da 12ª semana ou início da 13ª semana. Nessa fase, o feto já tem um tamanho que permite uma melhor avaliação anatômica, e muitas vezes já é possível dar um bom palpite sobre o sexo do bebê.

Para saber exatamente em que semana de gestação você está, utilize nossa calculadora de idade gestacional.

4. Como é Feito o Exame?

O exame de translucência nucal é feito por ultrassonografia, de maneira semelhante a qualquer outro ultrassom obstétrico.

Via abdominal

Na grande maioria dos casos, o exame é realizado pela via abdominal. O médico aplica o gel na barriga da gestante e utiliza o transdutor para obter as imagens do feto.

Gestante realizando exame de translucência nucal por via abdominal no primeiro trimestre
Utiliza-se a via abdominal para realizar o exame da translucência nucal.

Via transvaginal

Em cerca de 5% dos casos, a posição do bebê ou outras características da gestação dificultam a obtenção de uma boa imagem pelo abdômen. Nesses casos, o exame pode ser complementado pela via transvaginal. Não há nenhum risco para o bebê nessa situação.

Preparo e duração

Não é necessário nenhum preparo especial. Basta comparecer ao local do exame. É recomendável levar os exames anteriores para que o médico possa consultá-los se necessário. A duração do exame varia de 10 a 20 minutos.

Breve histórico

A medida da translucência nucal foi introduzida na prática clínica no início da década de 1990 pelo Prof. Kypros Nicolaides, médico grego que trabalha na Inglaterra. Ele foi um dos pioneiros em observar que fetos com alterações cromossômicas tendiam a acumular mais líquido na região da nuca. Desde então, a TN tornou-se o marcador ultrassonográfico mais importante do primeiro trimestre.

Qualificação do operador

A qualificação do operador é fundamental para a precisão da medida. O profissional que realiza o exame deve ter treinamento específico e participar de programas de controle de qualidade — como o programa FMF de Kypros Nicolaides.

5. Qual o Valor Normal da TN?

Uma dúvida muito frequente é sobre qual seria o valor “normal” da translucência nucal. No passado, utilizava-se um ponto de corte fixo de 2,5 mm. Hoje sabemos que essa abordagem é inadequada, pois a medida da TN varia de acordo com a idade gestacional.

Isso significa que um feto de 11 semanas normalmente tem uma TN menor do que um feto de 13 semanas. Portanto, a melhor forma de avaliar é comparar a medida obtida com os intervalos de referência para cada comprimento fetal.

A tabela abaixo, baseada no estudo de Faria (2004) em população brasileira, apresenta os valores de referência (percentis 5, 50 e 95) da translucência nucal de acordo com o comprimento cabeça-nádegas (CCN):

Tabela de Referência da TN — Faria, 2004 (população brasileira) · valores em mm por CCN
CCN (mm) P5 P50 P95
45 0,8 1,2 2,1
50 0,8 1,3 2,2
55 0,9 1,4 2,3
60 0,9 1,5 2,4
65 1,0 1,5 2,5
70 1,0 1,6 2,5
75 1,1 1,7 2,6
80 1,1 1,8 2,7
84 1,2 1,9 2,8

A tabela acima é um resumo. Para consultar todos os valores de CCN, acesse a tabela completa de referência da translucência nucal (Faria 2004).

Considera-se a translucência nucal aumentada quando o valor medido está acima do percentil 95 (P95) para a respectiva idade gestacional.

Calcule seu risco individual

Com a medida da translucência nucal e alguns dados simples, como a data de nascimento da mãe e o comprimento do feto, é possível calcular o risco individualizado. Use nossa Calculadora de Risco para Síndrome de Down.

6. TN Aumentada: O que Fazer?

A translucência nucal é considerada aumentada quando seu valor está acima do percentil 95 para a idade gestacional. Isso ocorre em cerca de 5% dos exames.

Ultrassom mostrando translucência nucal aumentada acima do percentil 95 — indicação de investigação complementar
Exemplo de translucência nucal aumentada.
Para a gestante

Uma TN aumentada não significa que o bebê necessariamente tem algum problema. Muitos bebês com TN aumentada são completamente saudáveis. Porém, o risco é estatisticamente maior e por isso são necessários exames complementares.

O que pode causar TN aumentada?

As causas da translucência nucal aumentada podem ser divididas em cromossômicas e não cromossômicas:

Causas Cromossômicas
  • Síndrome de Down
  • Síndrome de Edwards
  • Síndrome de Patau
  • Síndrome de Turner
  • Triploidias
Causas Não Cromossômicas
  • Cardiopatias congênitas
  • Síndrome de Noonan
  • Hérnia diafragmática
  • Displasias esqueléticas
  • Infecções fetais
  • Higroma cístico

Por que a TN aumenta?

Existem várias teorias que tentam explicar o acúmulo de líquido na nuca do feto. Nenhuma explica completamente todos os casos. As principais são:

Alteração no sistema linfáticoImaturidade ou obstrução da drenagem linfática na região cervical.
Alteração na composição da peleA composição de colágeno na pele de fetos com síndromes cromossômicas pode ser diferente, criando mais frouxidão e favorecendo o acúmulo de líquido.
Disfunção cardíacaMesmo defeitos cardíacos sutis podem causar congestão venosa e acúmulo de líquido na nuca.
Congestão venosaCompressão dos grandes vasos na região torácica e cervical.

Próximos passos após TN aumentada

Caso o exame revele uma translucência nucal aumentada, seu médico poderá recomendar:

Cariótipo Biópsia de vilo corial (11-14 sem) ou amniocentese (a partir de 15 sem). Cobertura obrigatória pelos convênios.
Microarray (CGH-Array) Análise genômica mais detalhada que o cariótipo. Detecta microdeleções e microduplicações que passam despercebidas no cariótipo convencional.
Exoma fetal Sequenciamento das regiões codificantes do DNA. Indicado quando cariótipo e microarray são normais mas há forte suspeita de alteração genética. O mais abrangente disponível.
Teste de DNA fetal livre (NIPT) Exame de sangue materno, alternativa menos invasiva. Indicado quando o risco está aumentado mas não muito elevado.
Ecocardiografia fetal Exame detalhado do coração do bebê, geralmente realizado entre 20 e 24 semanas.
Morfológico de 2.º trimestre Avaliação detalhada da anatomia fetal entre 20 e 24 semanas.
Importante

A escolha de qual exame genético realizar depende da análise de um especialista em medicina fetal ou genética humana e varia de caso a caso. O cariótipo tem cobertura obrigatória pelos planos de saúde, enquanto o microarray e o exoma geralmente não são cobertos — converse com seu médico sobre a melhor opção para o seu caso.

TN aumentada pode diminuir?

Sim, e isso é relativamente comum. A translucência nucal é um fenômeno transitório. Dentro de alguns dias ou semanas, o líquido pode ser reabsorvido e uma nova medição pode mostrar valores normais.

Atenção importante

Se em algum momento a TN esteve aumentada, o fato de ela diminuir posteriormente não reduz o risco. A avaliação de risco deve ser baseada na maior medida obtida no período correto de 11 a 14 semanas. Por isso é fundamental que a medida seja realizada na época correta.

7. Diferença entre TN e Exame Morfológico

Uma dúvida frequente é sobre a diferença entre o exame de translucência nucal e o exame morfológico. Embora ambos utilizem ultrassonografia, eles têm escopos diferentes:

Exame Quando O que avalia
Translucência Nucal (básico) 11–14 semanas Medida da TN e presença do osso nasal
Morfológico de 1.º trimestre 11–14 semanas TN + Doppler do ducto venoso + regurgitação tricúspide + Doppler das artérias uterinas + anatomia fetal precoce
Morfológico de 2.º trimestre 20–24 semanas Avaliação detalhada de toda a anatomia fetal
Comparação entre translucência nucal e Doppler do ducto venoso no exame morfológico de primeiro trimestre
A translucência nucal (esquerda) é realizada no exame básico. O Doppler do ducto venoso (direita) é feito apenas no exame morfológico de 1.º trimestre.

No exame morfológico de primeiro trimestre, além da TN, o médico avalia:

Ducto venosoAvalia a função cardíaca do bebê. Alterações no fluxo podem indicar cardiopatias ou síndromes cromossômicas.
Artérias uterinasAvalia o risco de a mãe desenvolver pré-eclâmpsia durante a gestação.
Regurgitação tricúspideOutro marcador de risco para alterações cromossômicas.
Osso nasalA ausência do osso nasal está associada a maior risco de síndrome de Down.

O exame morfológico de primeiro trimestre é, portanto, mais completo e preciso do que a medida isolada da translucência nucal.

8. Perguntas Frequentes

Toda gestante precisa fazer o exame de translucência nucal? +
Sim. O exame de translucência nucal é recomendado para todas as gestantes, independentemente da idade. Ele é parte fundamental do acompanhamento pré-natal e permite identificar precocemente bebês com risco aumentado para alterações cromossômicas e malformações estruturais.
Precisa de algum preparo especial para o exame? +
Não. O exame de translucência nucal não requer nenhum preparo especial. Basta comparecer ao local agendado. É recomendável levar os exames anteriores para que o médico possa consultá-los caso necessário.
O exame de translucência nucal é perigoso? +
Não. O exame é uma ultrassonografia comum, completamente segura tanto para a mãe quanto para o bebê. Mesmo quando realizado pela via transvaginal (em cerca de 5% dos casos), não há nenhum risco.
Quanto tempo demora o exame? +
O exame geralmente dura entre 10 e 20 minutos. A duração depende da posição do feto e da facilidade de obtenção das imagens necessárias.
TN aumentada significa que o bebê tem síndrome de Down? +
Não necessariamente. A translucência nucal aumentada indica um risco maior, mas muitos bebês com TN aumentada são completamente saudáveis. A TN é um exame de rastreamento, não de diagnóstico. Para confirmar ou descartar a síndrome de Down, são necessários exames complementares, como o cariótipo obtido por amniocentese ou biópsia de vilo corial.
Translucência nucal aumentada pode diminuir? +
Sim, a translucência nucal é um fenômeno transitório e pode diminuir em medições subsequentes. Porém, isso não altera o risco calculado. Se em algum momento a TN esteve aumentada, a avaliação de risco deve considerar essa medida, mesmo que uma medição posterior mostre um valor menor.
Qual a diferença entre translucência nucal e exame morfológico? +
A translucência nucal é apenas uma das medidas realizadas durante o exame. No exame morfológico de primeiro trimestre, além da TN, avalia-se o Doppler do ducto venoso, a regurgitação tricúspide, o Doppler das artérias uterinas e a anatomia fetal precoce. O morfológico é, portanto, um exame mais completo.
Referências
  1. Nicolaides KH, Azar G, Byrne D, Mansur C, Marks K. Fetal nuchal translucency: ultrasound screening for chromosomal defects in first trimester of pregnancy. BMJ. 1992;304(6831):867-869.
  2. Nicolaides KH. Nuchal translucency and other first-trimester sonographic markers of chromosomal abnormalities. Am J Obstet Gynecol. 2004;191(1):45-67.
  3. Faria M. Intervalos de referência da medida da translucência nucal em população brasileira. 2004.
  4. Bruns RF, Possas-de-Souza IC, Tannuri AC, et al. O papel da translucência nucal no rastreamento de cardiopatias congênitas. Arq Bras Cardiol. 2006;87(3):307-314.
  5. Rossi AC, Prefumo F. Accuracy of ultrasonography at 11-14 weeks of gestation for detection of fetal structural anomalies. Obstet Gynecol. 2013;122(6):1160-1167.
  6. Souka AP, Von Kaisenberg CS, Hyett JA, Sonek JD, Nicolaides KH. Increased nuchal translucency with normal karyotype. Am J Obstet Gynecol. 2005;192(4):1005-1021.
Dr. Rafael Frederico Bruns — Médico especialista em Medicina Fetal, Curitiba
Dr. Rafael Frederico Bruns
Médico CRM-PR 18.582
Medicina Fetal RQE 238

Conteúdo revisado por um médico especialista em medicina fetal. As informações têm caráter educacional e não substituem a consulta médica.

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