Originalmente, o parto cesáreo (ou cesariana) foi criado para evitar condições adversas maternas ou fetais, quando há riscos para a mãe, o bebê ou para ambos, no decorrer do parto. Quando bem indicada a operação cesariana é uma tecnologia que salva vidas.
No Brasil, 90% dos partos realizados na rede privada são cesáreas, contra 15% nos Estados Unidos e na França, e de 8% a 10% na Dinamarca e Alemanha. Um índice altíssimo, especialmente considerando-se o custo da cirurgia em relação ao parto normal.
“Há indícios de que o elevado número de cesarianas esteja relacionado com remuneração, agenda profissional, planejamento hospitalar, estrutura de atendimento, desinformação e alguns outros fatores”, diz José Fernando Maia Vinagre, conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM) e coordenador da comissão criada na entidade para estimular os partos naturais.
Em muitos casos, lamentam os especialistas, a escolha pela cesárea é por motivos banais. Data de aniversário no mesmo dia do que a mãe, agendas complicadas, mês ou signo preferidos já apareceram como justificativa.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa ideal de partos cesáreos deve ficar em torno de 7 a 10%, não ultrapassando 15%. Entretanto, nos últimos 37 anos testemunhamos uma "epidemia mundial" de cesarianas. Na Holanda, essa proporção é de 14%, nos Estados Unidos 26%, no México 34% e no Chile 40%. Isso ocorre em parte porque a cesariana passou a ser aceita culturalmente como um modo normal de dar à luz um bebê. As repercussões desse comportamento são bastante sérias e, segundo o CFM, as cesáreas acarretam quatro vezes mais risco de infecção pós-parto, três vezes mais risco de mortalidade e morbidade materna, aumento dos riscos de prematuridade e mortalidade neonatal, recuperação mais difícil da mãe, maior período de separação entre mãe/bebê com retardo do início da amamentação e elevação de gastos para o sistema de saúde.
Helvécio Miranda Magalhães, secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, classifica o número crescente de cesáreas como uma “epidemia”. Há dez anos, em 2000, elas representavam 38% dos partos realizados no País. Na rede pública, responsável por 65% dos partos, as cesarianas também cresceram bastante, passando de 24% dos partos em 2000 para 37% em 2010.
“Em todo o mundo, esses índices diminuem. No Brasil, aumentam. Estamos muito preocupados com essa verdadeira epidemia de cesarianas”, afirma. Para o secretário, será preciso adotar estratégias de curto, médio e longo prazo para mudar esse cenário.
Veja abaixo entrevista da Dra. Melania Amorim sobre o assunto: