Ressonância Magnética no Diagnóstico Pré-Natal
A ressonância magnética (RM) é um método propedêutico, não invasivo, capaz de oferecer imagens bem definidas do corpo humano. Seu interesse foi despertado nesta última década, especialmente para o estudo das anomalias intra-cranianas fetais, devido ao seu grande poder de contraste entre os tecidos.
O fenômeno ressonância, em que certos núcleos apresentam pequenos momentos magnéticos, foi descoberto por Bloch, Hansen e Packard em Stanford e Purcell, Torrey e Pound em Havard, no ano de 1946. Tal descoberta deu a Felix Bloch e Edward Mills Purcell o prêmio Nobel, além de dar início ao emprego desse fenômeno na química, biologia, física e mais tarde, na medicina.

Equipamento de Ressonância Nuclear Magnética
O princípio da RM é a representação digital da composição química dos vários tipos de tecidos expostos a um campo magnético potente. Para entender como a ressonância funciona depende do conhecimento de certos princípios físicos como as propriedades magnéticas do núcleo, o comportamento coletivo do núcleo quando excitado por onda de radiofrequência, as propriedades de relaxamento do núcleo e as técnicas de imagens utilizadas para maximizar diferenças por contraste.
O hidrogênio é o átomo mais utilizado para imagem por apresentar alta sensibilidade ao fenômeno de ressonância e também por estar largamente distribuído na matéria biológica.
O procedimento usado na RM consiste em submeter uma região a ser examinada num campo magnético, perturbando o equilíbrio do núcleo por uma determinada freqüência (freqüência de ressonância). Quando submetido à ação de um campo magnético, um tecido biológico tem seus prótons orientados segundo o eixo desse campo. Como exemplo, quando uma paciente é posicionada dentro do campo magnético do aparelho, os núcleos de hidrogênio do seu corpo, que normalmente tem orientação aleatória ficam alinhados passando a girar em torno de um eixo longitudinal paralelo ao vetor deste campo magnético com a mesma freqüência dos núcleos de hidrogênio. Em seguida, emite-se uma onda de radiofreqüência suficiente para provocar assimilação de energia pelos prótons da paciente, provocando desvio da magnetização para um plano transversal ao campo magnético. Cessada a onda de radiofreqüência, ocorre alinhamento dos prótons da paciente com o campo magnético havendo eliminação da energia acumulada a qual é detectada e localizada espacialmente. Estes dados obtidos a partir da medida desta energia (sinal) gerada na paciente constituirão a base para a formação das imagens. A força do campo magnético é medida em duas unidades: Gauss e Tesla. Um Tesla corresponde a 10.000 gauss. A força do campo magnético da terra está entre 0,5 e 1,0 gauss. Os aparelhos de RM trabalham com campos magnéticos de 0,25 a 3,0 Tesla. Assim, as pacientes são submetidas a campos magnéticos de 2.500 a 30.000 vezes superior ao campo magnético da terra. Após os impulsos de freqüência, o próton retorna ao seu estado inicial de equilíbrio. Este retorno também consiste numa emissão de sinais de baixa freqüência, que são captados e transformados em imagem pelo computador. Tal retorno ao estado inicial de equilíbrio do próton é chamado de tempo de relaxamento (T). Exemplificando melhor esse efeito, imagine um corpo que desce uma colina numa trajetória retilínea e lisa. Ele sairá do estado de alta energia ao fazer tal trajetória atingindo o final que seria um nível de baixa energia. Esse percurso é possível de ser captado e corresponderia ao retorno do próton a sua posição inicial ou T. Diversos tecidos apresentam diferentes T. Esse pode ocorrer em dois processos: (T1) ou tempo de relaxamento longitudinal, quando há transferência de energia para o meio molecular, representando a recuperação de 63% da magnetização longitudinal após a interrupção da onda de radiofreqüência, e (T2) ou tempo de relaxamento transversal, quando há transferência de energia de um átomo que vibra para o outro, ou seja, desalinhamento dos prótons ou perda de coerência. Os tecidos apresentam T1 e T2 diferentes, que são medidos em milisegundos, sendo maiores nos fluídos (sangue, líquido amniótico). Estes efeitos ocorrem simultaneamente, sendo que os tempos de repetição (TR) e tempos de eco (TE) que irão determinar que tipo de efeito estamos favorecendo em cada imagem (T1 ou T2). A densidade de prótons é proporcional ao conteúdo de água dos tecidos. Assim, além da diferença do T entre cada tecido, a imagem também depende do número de prótons por unidade de volume.
A característica mais importante da RM é a resolução de contraste tecidual, daí sua oportunidade de utilização em obstetrícia. O período considerado ideal para a realização do exame encontra-se entre 24 e 40 semanas. A RM fornece informações relevantes da anatomia fetal e a cerca das modificações dos órgãos e tecidos maternos durante a gestação. As principais indicações para a realização da RM são: oligoidramnia com suspeita de anomalia fetal; confirmar a detecção de uma anomalia fetal pela ultrassonografia (USG), principalmente do sistema nervoso central; estudo do crescimento fetal; placenta prévia; incompetência ístmocervical; pelvimetria (distócia de partes moles, apresentação pélvica); estudo da anatomia materna e prenhez ectópica. A RM pode ser útil na avaliação de massas anexiais em pacientes grávidas, que não podem ser totalmente caracterizadas pela USG.
A RM foi utilizada pela primeira vez na gestação em 1983. Em seguida, seu emprego cresceu progressivamente na obstetrícia e medicina fetal, destacando-se com excelência na avaliação do SNC do feto.
Embora a USG continue como a modalidade de escolha para a rotina do exame pré-natal devido ao seu baixo custo, maior disponibilidade de aparelhos, segurança, boa sensibilidade e capacidade de análise em tempo real, a RM tem um grande potencial na avaliação morfológica daqueles fetos difíceis de serem bem estudados pela USG.
Até o momento, não se conhece nenhum efeito biológico da RM sobre o feto. À luz de um alto risco em potencial, muitos centros preferem evitar seu uso durante o primeiro trimestre da gestação. Na Inglaterra, as orientações do “The National Radiological Protection Board (NRPB)” especificam a necessidade de haver uma prudência na utilização deste exame no curso da gestação, evitando o primeiro trimestre. No entanto, deve-se notar que inúmeros fetos foram submetidos à RM desde 1983 sem quaisquer anormalidades ao nascimento e desenvolvimento da criança.
No momento, considera-se melhor evitar contrastes à base de gadolínio no estudo do feto pela RM. O gadolínio atravessa a barreira placentária, e já foi descrito sua presença no interior da bexiga fetal no momento de sua infusão endovenosa. Da bexiga fetal, o contraste é excretado para o líquido amniótico e posteriormente deglutido pelo feto, podendo potencialmente ser reabsorvido no trato gastro-intestinal. Devido a esta reabsorção, a meia vida do gadolínio na circulação fetal não é conhecida. Existem relatos da associação do contraste com retardo de crescimento em camundongos.
Embora a legislação brasileira não tenha especificado a época apropriada para a realização de exames de RM em grávidas, procurou-se seguir o consenso internacional sobre as normas do referido procedimento. Deste modo, todos os exames são realizados a partir do segundo trimestre.
No passado, os artefatos causados pelos movimentos fetais eram a grande limitação da RM. A partir da primeira metade da década de 90, com os aparelhos de alto campo (1,5 Tesla) com gradientes potentes para seqüências ultra-rápidas, a RM ficou praticamente livre dos artefatos além da melhora significativa da qualidade das imagens . A seqüência mais utilizada é a T2 “single shot echo-train spin echo (half-fourier snapshot turbo spin echo – HASTE ou single shot fast spin echo – SSFSE”. Trata-se de uma seqüência rápida, cerca de 17 segundos, com a necessidade de um pequeno período de apnéia, facilmente tolerada pela paciente.
O exame é realizado com a paciente posicionada em decúbito dorsal ou lateral esquerdo, com a cabeça ou os pés entrando em primeiro lugar no magneto. Atualmente, não há necessidade de um preparo prévio ao exame. Em alguns casos como na presença de polidramnia acentuada, pode ser necessária uma sedação materna prévia utilizando benzodiazepínicos (5 a 10 mg) pela via oral, cerca de 15 minutos antes da realização do exame, com objetivo de reduzir uma ansiedade materna ou possíveis movimentos fetais, que são responsáveis pela degradação da imagem. Uma vez posicionada a paciente no magneto, a localização fetal é inicialmente realizada a partir de seqüências multiplanares (planos axial, coronal e sagital). O tempo de realização do exame está em torno de 20 minutos.
A qualidade da imagem oferecida pela RM está diretamente proporcional à idade da gestação. A anatomia fetal é melhor descrita em gestações mais avançadas, sobretudo a partir da 24ª semana.
As principais indicações estão nas malformações do sistema nervoso central. A agenesia do corpo caloso é um diagnóstico passível de ser realizado à USG, porém a RM passou a ser fundamental na confirmação diagnóstica dos casos duvidosos.
Com a RM, o diagnóstico pré-natal da esclerose tuberosa é possível quando na presença de rabdomiomas cardíacos identificados pela USG. Pode-se usar a RM na pesquisa de tubérculos e nódulos sub-ependimários.
O uso da RM tem sido avaliado no estudo do cérebro de fetos de mães portadoras de infecções, especialmente nos casos de soroconversão materna para citomegalovírus. Uma infecção precoce (entre 16 e 18 semanas) acontece exatamente nas primeiras fases da migração neuronal, levando a uma lisencefalia. Tal alteração seria passível de ser identificada pela USG através de sinais indiretos como a microcefalia e dilatação ventricular. No entanto, a RM tem condições de avaliar mais especificamente o retardo na formação dos giros cerebrais. Se a infecção por citomegalovírus fosse mais tardia (entre 18 e 24 semanas), ocorreria exatamente na fase de organização neuronal, sendo responsável pela displasia cortical, um retardo de mielinização e/ou uma polimicrogiria. Tais alterações não seriam mais identificadas pela USG, porém facilmente identificadas à RM.
As dilatações ventriculares são as principais indicações para a RM. Seu espectro é amplo, englobando diversas etiologias, tendo seu prognóstico variando em função do tamanho (leve, moderada e acentuada), e da presença ou não de anomalias associadas. Todo esse aspecto da dilatação pode ser muito bem avaliado à USG. Porém, muitas anomalias associadas podem passar despercebidas, tais como a holoprosencefalia lobar, anomalias dos giros cerebrais e pequenas lesões hemorrágicas.
Apesar das maiores indicações de RM no feto estar relacionada às patologias do sistema nervoso central, esta vem se mostrando de grande utilidade também no estudo de outras malformações fetais, tais como: hérnia diafragmática, defeitos da parede abdominal e urinárias.
Os pulmões fetais são estruturas bem visualizadas pela RM, graças à presença de água na sua constituição. Este estudo é de fundamental importância para a avaliação da sobrevida do concepto, especialmente nos casos de oligoidramnia acentuada. O fígado pode ser facilmente avaliado pela RM, o que leva o método a exame complementar de grande importância para a avaliação das hérnias diafragmáticas. As estruturas do aparelho digestivo alto são visualizadas pela RM, por força do líquido amniótico deglutido. As alças de delgado assim como o cólon e sigmóide podem ser facilmente avaliados.
Nos linfangiomas e teratomas, a RM define melhor o grau de comprometimento e tamanho do tumor. Nas malformações do aparelho urinário, uma avaliação ecográfica está muitas vezes dificultada pela oligoidramnia acentuada. A RM pode trazer uma grande contribuição como na avaliação das lojas renais para confirmação diagnóstica de uma agenesia renal.
Do consolidado da literatura e das observações do nosso grupo, permite-se fazer algumas considerações finais:
A RM vem tomando um lugar expressivo na exploração do feto. Ela não vem como substituto da USG, mas sim como método complementar oferecendo imagens adicionais da estrutura fetal. Trata-se de um exame essencialmente morfológico, e a sua qualidade de imagem tende a cada vez mais a melhorar com a evolução dos aparelhos. Pode ser usada, sem contra-indicações na gravidez, principalmente na avaliação das anomalias cerebrais. Porém, seu uso deve ser restrito aos casos em que o resultado ultrassonográfico seja duvidoso. Apesar de não utilizar nenhum efeito de radiação, seu alto custo ainda deve ser considerado.
Sua acuidade diagnóstica melhora com o aumento da idade gestacional, não sendo perturbada pela oligoidramnia acentuada, obesidade materna ou estática fetal. Ela pode ser útil na avaliação intra-útero de fetos candidatos a cirurgia pós-natal, como nos casos de hérnia diafragmática, quando a presença do conteúdo herniário pode ser bem estabelecida.
A ressonância magnética (RM) é um método propedêutico, não invasivo, capaz de oferecer imagens bem definidas do corpo humano. Seu interesse foi despertado nesta última década, especialmente para o estudo das anomalias intra-cranianas fetais, devido ao seu grande poder de contraste entre os tecidos.
O fenômeno ressonância, em que certos núcleos apresentam pequenos momentos magnéticos, foi descoberto por Bloch, Hansen e Packard em Stanford e Purcell, Torrey e Pound em Havard, no ano de 1946. Tal descoberta deu a Felix Bloch e Edward Mills Purcell o prêmio Nobel, além de dar início ao emprego desse fenômeno na química, biologia, física e mais tarde, na medicina.
O princípio da ressonância magnética é a representação digital da composição química dos vários tipos de tecidos expostos a um campo magnético potente. Para entender como a ressonância funciona depende do conhecimento de certos princípios físicos como as propriedades magnéticas do núcleo, o comportamento coletivo do núcleo quando excitado por onda de radiofrequência, as propriedades de relaxamento do núcleo e as técnicas de imagens utilizadas para maximizar diferenças por contraste.
O hidrogênio é o átomo mais utilizado para imagem por apresentar alta sensibilidade ao fenômeno de ressonância e também por estar largamente distribuído na matéria biológica.
O procedimento usado na ressonância magnética consiste em submeter uma região a ser examinada num campo magnético, perturbando o equilíbrio do núcleo por uma determinada freqüência (freqüência de ressonância). Quando submetido à ação de um campo magnético, um tecido biológico tem seus prótons orientados segundo o eixo desse campo. Como exemplo, quando uma paciente é posicionada dentro do campo magnético do aparelho, os núcleos de hidrogênio do seu corpo, que normalmente tem orientação aleatória ficam alinhados passando a girar em torno de um eixo longitudinal paralelo ao vetor deste campo magnético com a mesma freqüência dos núcleos de hidrogênio.
Em seguida, emite-se uma onda de radiofreqüência suficiente para provocar assimilação de energia pelos prótons da paciente, provocando desvio da magnetização para um plano transversal ao campo magnético. Cessada a onda de radiofreqüência, ocorre alinhamento dos prótons da paciente com o campo magnético havendo eliminação da energia acumulada a qual é detectada e localizada espacialmente. Estes dados obtidos a partir da medida desta energia (sinal) gerada na paciente constituirão a base para a formação das imagens. A força do campo magnético é medida em duas unidades: Gauss e Tesla.
Um Tesla corresponde a 10.000 gauss. A força do campo magnético da terra está entre 0,5 e 1,0 gauss. Os aparelhos de ressonância magnética trabalham com campos magnéticos de 0,25 a 3,0 Tesla. Assim, as pacientes são submetidas a campos magnéticos de 2.500 a 30.000 vezes superior ao campo magnético da terra.
Após os impulsos de freqüência, o próton retorna ao seu estado inicial de equilíbrio. Este retorno também consiste numa emissão de sinais de baixa freqüência, que são captados e transformados em imagem pelo computador. Tal retorno ao estado inicial de equilíbrio do próton é chamado de tempo de relaxamento (T). Exemplificando melhor esse efeito, imagine um corpo que desce uma colina numa trajetória retilínea e lisa. Ele sairá do estado de alta energia ao fazer tal trajetória atingindo o final que seria um nível de baixa energia. Esse percurso é possível de ser captado e corresponderia ao retorno do próton a sua posição inicial ou T.
Diversos tecidos apresentam diferentes T. Esse pode ocorrer em dois processos: (T1) ou tempo de relaxamento longitudinal, quando há transferência de energia para o meio molecular, representando a recuperação de 63% da magnetização longitudinal após a interrupção da onda de radiofreqüência, e (T2) ou tempo de relaxamento transversal, quando há transferência de energia de um átomo que vibra para o outro, ou seja, desalinhamento dos prótons ou perda de coerência. Os tecidos apresentam T1 e T2 diferentes, que são medidos em milisegundos, sendo maiores nos fluídos (sangue, líquido amniótico). Estes efeitos ocorrem simultaneamente, sendo que os tempos de repetição (TR) e tempos de eco (TE) que irão determinar que tipo de efeito estamos favorecendo em cada imagem (T1 ou T2). A densidade de prótons é proporcional ao conteúdo de água dos tecidos. Assim, além da diferença do T entre cada tecido, a imagem também depende do número de prótons por unidade de volume.
A característica mais importante da ressonância magnética é a resolução de contraste tecidual, daí sua oportunidade de utilização em obstetrícia. O período considerado ideal para a realização do exame encontra-se entre 24 e 40 semanas. A ressonância magnética fornece informações relevantes da anatomia fetal e a cerca das modificações dos órgãos e tecidos maternos durante a gestação.
As principais indicações para a realização da RM são:
- Oligoidramnia com suspeita de anomalia fetal;
- Confirmar a detecção de uma anomalia fetal pela ultrassonografia (USG), principalmente do sistema nervoso central;
- Estudo do crescimento fetal;
- Placenta prévia;
- Incompetência ístmocervical;
- Pelvimetria (distócia de partes moles, apresentação pélvica);
- Estudo da anatomia materna e prenhez ectópica;
- Avaliação de massas anexiais em pacientes grávidas, que não podem ser totalmente caracterizadas pela ultrassonografia.
A ressonância magnética foi utilizada pela primeira vez na gestação em 1983. Em seguida, seu emprego cresceu progressivamente na obstetrícia e medicina fetal, destacando-se com excelência na avaliação do sistema nervoso central do feto.
Embora a ultrassonografia continue como a modalidade de escolha para a rotina do exame pré-natal devido ao seu baixo custo, maior disponibilidade de aparelhos, segurança, boa sensibilidade e capacidade de análise em tempo real, a ressonância magnética tem um grande potencial na avaliação morfológica daqueles fetos difíceis de serem bem estudados pela ultrassonografia.
Até o momento, não se conhece nenhum efeito biológico da ressonância magnética sobre o feto. A luz de um alto risco em potencial, muitos centros preferem evitar seu uso durante o primeiro trimestre da gestação. Na Inglaterra, as orientações do “The National Radiological Protection Board (NRPB)” especificam a necessidade de haver uma prudência na utilização deste exame no curso da gestação, evitando o primeiro trimestre. No entanto, deve-se notar que inúmeros fetos foram submetidos à ressonância magnética desde 1983 sem quaisquer anormalidades ao nascimento e desenvolvimento da criança.
No momento, considera-se melhor evitar contrastes à base de gadolínio no estudo do feto pela ressonância magnética. O gadolínio atravessa a barreira placentária, e já foi descrito sua presença no interior da bexiga fetal no momento de sua infusão endovenosa. Da bexiga fetal, o contraste é excretado para o líquido amniótico e posteriormente deglutido pelo feto, podendo potencialmente ser reabsorvido no trato gastro-intestinal. Devido a esta reabsorção, a meia vida do gadolínio na circulação fetal não é conhecida. Existem relatos da associação do contraste com retardo de crescimento em camundongos.
Embora a legislação brasileira não tenha especificado a época apropriada para a realização de exames de RM em grávidas, procurou-se seguir o consenso internacional sobre as normas do referido procedimento. Deste modo, todos os exames são realizados a partir do segundo trimestre.
No passado, os artefatos causados pelos movimentos fetais eram a grande limitação da RM. A partir da primeira metade da década de 90, com os aparelhos de alto campo (1,5 Tesla) com gradientes potentes para seqüências ultra-rápidas, a RM ficou praticamente livre dos artefatos além da melhora significativa da qualidade das imagens . A seqüência mais utilizada é a T2 “single shot echo-train spin echo (half-fourier snapshot turbo spin echo – HASTE ou single shot fast spin echo – SSFSE”. Trata-se de uma seqüência rápida, cerca de 17 segundos, com a necessidade de um pequeno período de apnéia, facilmente tolerada pela paciente.
O exame é realizado com a paciente posicionada em decúbito dorsal ou lateral esquerdo, com a cabeça ou os pés entrando em primeiro lugar no magneto. Atualmente, não há necessidade de um preparo prévio ao exame. Em alguns casos como na presença de polidramnia acentuada, pode ser necessária uma sedação materna prévia utilizando benzodiazepínicos (5 a 10 mg) pela via oral, cerca de 15 minutos antes da realização do exame, com objetivo de reduzir uma ansiedade materna ou possíveis movimentos fetais, que são responsáveis pela degradação da imagem. Uma vez posicionada a paciente no magneto, a localização fetal é inicialmente realizada a partir de seqüências multiplanares (planos axial, coronal e sagital). O tempo de realização do exame está em torno de 20 minutos.
A qualidade da imagem oferecida pela ressonância magnética está diretamente proporcional à idade da gestação. A anatomia fetal é melhor descrita em gestações mais avançadas, sobretudo a partir da 24ª semana.
As principais indicações estão nas malformações do sistema nervoso central. A agenesia do corpo caloso é um diagnóstico passível de ser realizado à ultrassonografia, porém a ressonância magnética passou a ser fundamental na confirmação diagnóstica dos casos duvidosos.
Com a ressonância magnética, o diagnóstico pré-natal da esclerose tuberosa é possível quando na presença de rabdomiomas cardíacos identificados pela ultrassonografia. Pode-se usar a ressonância magnética na pesquisa de tubérculos e nódulos sub-ependimários.
O uso da ressonância magnética tem sido avaliado no estudo do cérebro de fetos de mães portadoras de infecções, especialmente nos casos de soroconversão materna para citomegalovírus. Uma infecção precoce (entre 16 e 18 semanas) acontece exatamente nas primeiras fases da migração neuronal, levando a uma lisencefalia. Tal alteração seria passível de ser identificada pela ultrassonografia através de sinais indiretos como a microcefalia e dilatação ventricular. No entanto, a ressonância magnética tem condições de avaliar mais especificamente o retardo na formação dos giros cerebrais. Se a infecção por citomegalovírus fosse mais tardia (entre 18 e 24 semanas), ocorreria exatamente na fase de organização neuronal, sendo responsável pela displasia cortical, um retardo de mielinização e/ou uma polimicrogiria. Tais alterações não seriam mais identificadas pela USG, porém facilmente identificadas à ressonância magnética.
As dilatações ventriculares são as principais indicações para a ressonância magnética. Seu espectro é amplo, englobando diversas etiologias, tendo seu prognóstico variando em função do tamanho (leve, moderada e acentuada), e da presença ou não de anomalias associadas. Todo esse aspecto da dilatação pode ser muito bem avaliado à ultrassonografia. Porém, muitas anomalias associadas podem passar despercebidas, tais como a holoprosencefalia lobar, anomalias dos giros cerebrais e pequenas lesões hemorrágicas.
Apesar das maiores indicações de ressonância magnética no feto estar relacionada às patologias do sistema nervoso central, esta vem se mostrando de grande utilidade também no estudo de outras malformações fetais, tais como: hérnia diafragmática, defeitos da parede abdominal e urinárias.
Os pulmões fetais são estruturas bem visualizadas pela ressonância magnética, graças à presença de água na sua constituição. Este estudo é de fundamental importância para a avaliação da sobrevida do concepto, especialmente nos casos de oligoidramnia acentuada. O fígado pode ser facilmente avaliado pela ressonância magnética, o que leva o método a exame complementar de grande importância para a avaliação das hérnias diafragmáticas. As estruturas do aparelho digestivo alto são visualizadas pela ressonância magnética, por força do líquido amniótico deglutido. As alças de delgado assim como o cólon e sigmóide podem ser facilmente avaliados.
Nos linfangiomas e teratomas, a ressonância magnética define melhor o grau de comprometimento e tamanho do tumor. Nas malformações do aparelho urinário, uma avaliação ecográfica está muitas vezes dificultada pela oligoidramnia acentuada. A RM pode trazer uma grande contribuição como na avaliação das lojas renais para confirmação diagnóstica de uma agenesia renal.
Do consolidado da literatura e das observações do nosso grupo, permite-se fazer algumas considerações finais:
- A RM vem tomando um lugar expressivo na exploração do feto. Ela não vem como substituto da USG, mas sim como método complementar oferecendo imagens adicionais da estrutura fetal. Trata-se de um exame essencialmente morfológico, e a sua qualidade de imagem tende a cada vez mais a melhorar com a evolução dos aparelhos. Pode ser usada, sem contra-indicações na gravidez, principalmente na avaliação das anomalias cerebrais. Porém, seu uso deve ser restrito aos casos em que o resultado ultrassonográfico seja duvidoso.
- Apesar de não utilizar nenhum efeito de radiação, seu alto custo ainda deve ser considerado.
- Sua acuidade diagnóstica melhora com o aumento da idade gestacional, não sendo perturbada pela oligoidramnia acentuada, obesidade materna ou estática fetal.
- Ela pode ser útil na avaliação intra-útero de fetos candidatos a cirurgia pós-natal, como nos casos de hérnia diafragmática, quando a presença do conteúdo herniário pode ser bem estabelecida.
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