Dr. Luiz Fernando M. Hilbert

O Bebê está com o Cordão Enrolado no Pescoço? Não tem Problema!

Uma dúvida freqüente das gestantes é com respeito as circulares de cordão, em especial as da região cervical ("cordão enrolado no pescoço"). As circulares de cordão umbilical estão presentes em 20-40% de todas as gestações. Trata-se de fenômeno natural que ocorre durante a gestação no qual o cordão umbilical envolve o pescoço do concepto. De um modo geral são consideradas condições benignas e excepcionalmente relacionadas a complicações perinatais.

O cordão umbilical é uma estrutura não inervada composta de duas artérias e uma veia. Circundando estes vasos existe uma substância mucóide, chamada de Gelatina de Warthon, que é constituída principalmente de mucopolissacarídeo. A função desta gelatina é de sustentação e proteção dos vasos contra compressões e possíveis roturas.

Ultimamente tem sido cada vez mais freqüente o diagnóstico ultrassonográfico de circular de cordão umbilical, isto decorre basicamente de dois fatores:

  1. Sistematização pelo profissional que realiza o exame de ultrassom;
  2. Maior disponibilidade de aparelhos com recursos técnicos avançados.

Até o momento a literatura apresenta relatos de complicações perinatais sem significância estatística. Miser, 1992 relata que os efeitos da circular cervical sobre a evolução da gestação e do parto são ainda controversas. Não encontrou associação entre circular cervical e aumento da morbidade e mortalidade neonatal. Larson e cols, 1995 em seus estudos concluíram que não existe aumento importante dos riscos de um resultado neonatal adverso associados à presença de múltiplas circulares cervicais de cordão.

Imagens (Ilustração e Ultrassom) de Circular de Cordão e Alça de Cordão
Clique nas imagens acima para ampliá-las. Observe que na circular o cordão dá uma volta completa no pescoço, enquanto que na alça ele apenas contorna a parte posterior do pescoço. As imagens de ultrassom são cortes transversais da região cervical fetal.

Em um grupo de 70 recém natos que cursavam com circular cervical durante a gestação, Strong, 1992 observou que somente naquelas gestações que apresentavam oligodrâmnio (redução do volume de líquido amniótico) intraparto, houve aumento significativo de incidência de líquido amniótico meconial, desacelerações variáveis graves e bradicardia fetal (sinais de sofrimento fetal). Sadovsky 1997, documentou sofrimento fetal intra-parto em 17% das parturientes que apresentavam fetos com circulares cervicais ao passo que 83% dos fetos com a mesma situação foram assintomáticos, concluindo que o sofrimento fetal foi achado incidental no parto.

Na ausência de alteração da freqüência cardíaca fetal intraparto, a circular cervical não está diretamente associada aos aumentos das taxas de morbiletalidade perinatal, assim como com o comprometimento neurológico tardio ou as seqüelas no seu desenvolvimento (Sherer & Manning, 1999).

Com relação a via de parto, Feisntein e col. não consideram que a circular cervical por si só, justifique a indicação de cesárea. Em nosso meio Barini acredita que a circular cervical não é razão suficiente para indicação de parto cesarea considerando conduta desnecessária e incorreta, pelo menos até que estudos prospectivos possam concluir em contrário.

O Professor Ricardo Barini (Unicamp) relata: " ... no momento onde a comunidade médica e de um modo geral, os profissionais envolvidos com a área de saúde tentam unir esforços para reduzir o número de cesareanas desnecessárias no Brasil, é preocupante esta nova informação presente nos laudos de ultrassonografia obstétrica, e principalmente sua utilização como JUSTIFICATIVA para intervenções obstétricas extemporâneas. Inegavelmente, este diagnóstico, mesmo sem ter o objetivo de determinar condutas, cria no mínimo uma sensação de insegurança entre as gestantes e seus familiares, e até provavelmente entre os próprios obstetras, frente ao trabalho de parto, ao parto via vaginal e até à continuidade da gestação. É perfeitamente compreensível que este fato possa gerar indicações de cesareanas de maneira precipitada ou até desnecessárias."

A circular cervical de cordão umbilical é um dos achados mais comuns no ultrassom e discutido nos exames perinatais, causando ansiedade desnecessária na família e divergências na conduta médica. Na gestação de evolução normal, sem a existência de fatores de risco, a família pode ser tranqüilizada, pois a presença isolada de circular cervical não parece aumentar os riscos para os fetos, especialmente porque muitas dessas poderão desfazer-se espontaneamente. Ainda não existem evidências científicas sólidas que demonstrem riscos da presença de circular cervical diagnosticada durante a gravidez.

Referências:


  1. Benirschke K, Kaufmann P. Anatomy and pathology of the umbilical cord and major fetal vessels. In: Pathology of the Human Placenta, 3rd edition New York: Springer-Verlag; 1995. P. 319-65.
  2. Collins JH, Collins CL, Weckwerth SR, De Angelis L. Nuchal cords: timing of prenatal diagnosis and duration. Am J Obstet Gynecol 1995; 173:768.
  3. Collins JH. Nuchal cord type A and type B. Am J Obstet Gynecol 1997; 177:94.
  4. Jauniaux E, Mawissa C, Peerlaerts C, Rodesch F. Nuchal cord in normal third-trimester pregnancy: a color Doppler imaging study. Ultrasound Obstet Gynecol 1992; 2:417-19.
  5. Jauniaux E, Ramsay B, Peerlaerts C, Scholler Y. Perinatal features of pregnancies complicated by nuchal cord. Am J Perinatol 1995; 12:255-30.
  6. Larson JD, Rayburn WF, Harlan VL. Nuchal cord entanglements and gestational age. Am J Perinatol 1997; 14:555-7.
  7. Larson JD, Rayburn WF, Crosby S., Thurnau GR. Nuchal cord entanglements and intrapartum complications. Am J Obstet Gynecol 1995; 173:1228-31.
  8. Miser WF. Outcome of infants born with nuchal cords. J Fam Pract 1992; 34:441-5.
  9. Feinstein SJ, Lodeiro JG, Vintzileos AM, Weinbaum PJ, Campbell WA, Nochimson DJ. Intrapartum ultrasound diagnosis of nuchal cord as a decisive factor in managment. Am J Obstet Gynecol 1985; 153(3): 308-309.
  10. Sørnes T. Umbilical cord encirclements and fetal growth restriction. Obst Gynecol 1995; 86:725-8.
  11. Strong TH, Sarno A, Paul RH. Significance of intrapartum amniotic fluid volume in the presence of nuchal cords. J Reprod Med 1992; 37:718-20.
  • Quinta, 21 Julho 2011

Comentários