10º Congresso Mundial de Medicina Fetal Malta 2011
Como no ano passado, o primeiro dia do congresso foi dedicado a assuntos relacionados a cirurgia fetal intra-uterina, particularmente o Eurofoetos. Este ano o evento foi realizado na ilha de Malta e aparentemente o número de participantes teve um aumento expressivo, especialmente de brasileiros. A toda hora era possível ouvir alguém falando em português perto de você.
Minimizando o Tempo de Cirurgia na Correção da Mielomeningocele
A Dra. Denise Pedreira (Brasil) que demonstrou uma técnica alternativa e simplificada para o fechamento do defeito de coluna da mielomeningocele. Isto poderá reduzir substancialmente o tempo da cirurgia para correção. Com esta redução no tempo de cirurgia esperamos também benefícios como a redução no número de complicações decorentes do procedimento.

Cirurgia Fetal e Telemedicina
O Dr. Suresh Seshandri (Índia) apresentou também sua experiência sobre a telesupervisão em casos de fetoscopia e laser. Junto com o Prof. Yves Ville (França) e usando uma conexão ISDN ele demonstrou a factibilidade deste tipo de supervisão. Após um estágio de observação em Paris, o Dr. Suresh retornou para a Índia para realizar a cirurgia contando com a supervisão do Prof. Yves Ville em Paris. Certamente isto irá trazer questionamentos no campo da ética, entretanto seria uma maneira de locais menos economicamente favorecidos. Conforme ressaltou o Dr. Suresh, isto poderá reduzir os custos para a paciente e permitir que o tratamento chegue em locais mais remotos. Certamente houveram criticas no sentido de que este tipo de supervisão poderia ser deficiente devido a qualidade de transmisão de som e imagens, mas realmente é uma maneira interessante de difundir o método em outros países.
Bandas Amnióticas
O Dr. Romain Favre (França) também mostrou resultados com terapia para lise de bandas amnióticas. Durante a sua explanação ele comentou a respeito de uma classificação para bandas amnióticas que estou transcrevendo abaixo:
- Banda amniótica sem sinais de constrição
- Constrição sem sinais de comprometimento vascular (Doppler normal quando comparado ao membro contralateral), pode haver deformidade
- Linfedema discreto ou ausente
- Linfedema importante
- Constrição importante com comprometimento vascular. O fluxo deve ser avaliado em todas as porções (proximal, sobre a constrição e distal)
- Doppler distal alterado quando comparado com membro contralateral
- Sem fluxo vascular na extremidade
- Encurvamento ou fratura óssea em extremidade
- Amputação intra-uterina
Obs: em condições normais o IP e a velocidade de fluxo deve ser simétrica nos membros
Números da Cirurgia Fetal no Brasil
O Dr. Fábio Peralta (Brasil) apresentou alguns números de cirurgia realizados por ele. Já tínhamos conhecimento de um número considerável de cirurgias para Transfusão Feto-Feto e colocação de balão traqueal em Hérnia Diafragmática. Entretanto nos supreendeu o numero de cirurgias cardíacas fetais já realizadas pelo seu grupo: 8 valvuloplastias aórticas, 2 valvuloplastias pulmonares e 3 septostomias atriais.
Os Resultados do Estudo MOMS
Conforme era esperado, o Dr. Alan Flake (USA) discutiu aspectos do estudo MOMS interrompido recentemente devido ao evidente benefício apresentado pelo grupo submetido a cirurgia intra-uterina para mielomeningocele. Ele comentou que ainda acredita que exista espaço para desenvolvermos mais a técnica, em especial o tempo da correção da mielomeningocele. Apresentou ainda preocupação de que outros centros não tão bem estruturados tentem realizar a cirurgia e não atinjam resultados tão bons, uma vez que apenas 3 centros nos EUA estavam realizando a cirurgia.
Parto Prematuro
No painel sobre parto prematuro tivemos a participação do Prof. Roberto Romero (EUA) que comentou sobre os resultados do estudo recentemente publicado sobre a redução de prematuridade com aplicação de progesterona em gel (Vaginal progesterone reduces the rate of preterm birth in women with a sonographic short cervix: a multicenter, randomized, double-blind, placebo-controlled trial). Apesar de estudos anteriores como o o Dr. Eduardo Fonseca (Progesterone and the risk of preterm birth among women with a short cervix) já terem demonstrado a redução na incidência de partos prematuros extremos com o uso da progesterona vaginal, este foi o primeiro estudo que consiguiu comprovar uma redução no número de complicações neonatais e por isso a sua importância. Infelizmente, nas gestações múltiplas diversos pesquisadores apresentaram dados demonstrando que esse profilaxia não é replicável.
Com relação ao sludge tivemos uma apresentação interessante da Dra. Stefania Tudorache (Romênia) que demonstrou dados aonde pudemos observar que mesmo nos colos uterinos longos, a presença de sludge é um fator de risco independente para o parto prematuro. No fim do dia o Prof. Roberto Romero (EUA) apresentou evidências sobre a etiologia do sludge estar ligada a infecção intra-uterina.
Anatomia Patológica da Placenta
Com relação a este tópico, o Prof. Neil Sebire (RU) apresentou dados interessantes, demonstrando que diversas alterações patológicas encontradas na histologia de placenta estão presentes em placentas de gestações classificadas como normais. Isto coloca coloca em dúvida os resultados que recebemos quando solicitamos estudos histológicos sobre a placenta pois o patologista pode ser induzido pelas informações que colocamos na requisição. Estes dados ainda não estão publicados mas já foram submetidos para publicação.
Placenta Percreta
Uma revisão sobre o manejo de pacientes com placenta percreta foi apresentado pelo Dr. Michael Belfort (EUA). Algumas das recomendações e análises feitas podem ser vistas nos slides abaixo:

Etiologia da Paralisia Cerebral pode ser Infecção Intra-Uterina
O Dr. Roberto Romero (EUA) apresentou brilhante explanação sobre o assunto. Portanto nem toda paralisia cerebral é causada por eventos diretamente ligados ao parto: ela pode já existir anteriormente. Para defender este ponto ele apresentou resultados de diversos estudos experimentais em animais que sustentam esta afirmação.
Resultados de um Programa de Rastreamento Nacional no Reino Unido
Na minha opinião esta foi uma das apresentações mais interessantes do evento, realizada pela Sra. Pat Wark (RU). Foram mostrados dados referentes aos resultados do programa de rastreamento implementado no Reino Unido. De uma maneira bastante resumida podemos dizer que o número de procedimentos invasivos (amniocentese + biópsia de vilo corial) baixo de 36 mil (anos 2003/2004) para 13 mil (anos 2009/2010). Esta redução foi alcançada com um aumento progressivo da sensibilidade do método. Portanto, podemos concluir que vale a pena realizar o rastreamento com todas as ferramentas possíveis (história materna + ultrassom + bioquímica).
Autópsia Virtual
Cada ano parece aumentar o número de grupos interessados em realizar estudo de autópsia em fetos utilizando a Ressonância Nuclear Magnética (RNM). Observamos que dentro das palestras apresentadas houve uma concordância em afirmar que acima de 20 semanas a RNM de 1,5 T parece ser suficiente para obter boas imagens. Entretanto em fetos menores precisamos de aparelhos com campo magnético de 9,4 T. Vejam abaixo imagem de uma ressonância de 9,4 T no coração de um feto de 16 semanas:

Ultrassom na Sala de Parto: Luxo ou Necessidade?
Após ouvir a argumentação do Prof. Reuven Achiron (Israel), estou cada vez mais convencido de que o ultrassom deve fazer parte do instrumental disponível na sala de pré-parto e parto de qualquer hospital. Já ouvia o Dr. Antonio Fernandes Moron comentar sobre o assunto desde 2005 e realmente parece que o exame digital deve ser substituído pela visão ultrassonográfica, com possibilidade de realizar medidas e ter um parâmetro mais objetivo para tomar decisões extremamente importantes.
Encontro Científico do EuroGentest
A palestra que mais me interessou neste painel foi da Dra. Rossa Chiu (China). Ela apresentou uma metodologia de diagnóstico não invasivo que apresenta boa acurácia para detecção das triploidias que envolvem os cromossomos 13, 18 e 21. É importante ainda ressaltar que a aplicação desta metodologia não é capaz de superar a acurácia do cariótipo, entretanto ela pode ser implementada como mais um marcador para o cálculo de risco de cromossomopatias, podendo então diminuir o número de rastreamentos falso-positivos.
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